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Barco: Fast 395.
Partida: Dezembro, 2006 - Iate Clube de Santa Catarina.
Distância aproximada: 3.200 Milhas Náuticas.

Navegar a costa brasileira em um barco à vela sempre fascinou muita gente. Conhecer lugares fantásticos – que são muitos! – ao longo do nosso litoral, aproveitando o vento bom e os dias de sol do verão brasileiro é um convite irrecusável. Foi também motivo suficiente para que eu ficasse com a consciência leve, sem arrependimentos por ter deixado minha “escola de vela” de portas fechadas durante os meses de dezembro e janeiro. Desde o início, sabia que, ao voltar desta aventura, traria experiências e histórias para contar aos meus alunos e amigos.

Assim, aceitei a proposta do meu amigo Werner Zotz: escolher um bom barco para a aventura e ser o capitão da expedição, deixando-o liberado para produzir as fotos e textos que resultariam em mais um livro da Coleção Expedições, da Editora Letras Brasileiras: Aventura entre duas ilhas.
DICA – Fiquem atentos quando este livro for lançado. Deverá estar nas livrarias antes de julho. Vou divulgar aqui no site também. O Werner é um grande escrito, dos feras, e tirou muitas fotos lindas, e me disse que colocará umas ‘trezentas fotos ‘ !! neste livro. Vai ficar alucinante !

O barco escolhido foi um Fast 395, o Hot Day II, aportado no Iate Clube de Florianópolis, do Décio Novaes, que incorporou-se à viagem. Esse barco, projeto do arquiteto naval argentino German Frers, me passava a segurança necessária para o empreendimento.

Parte 1 / Roteiro básico

Partir de Florianópolis no início de dezembro, levando o barco até Cabedelo, na Paraíba, com o mínimo de paradas possíveis. Voltei no final de dezembro para passar o Natal e o réveillon com a família. Décio permaneceu no Nordeste (os filhos foram visitá-lo e completaram o final da subida).

Parte 2 / Roteiro básico

Nos encontramos, Décio, eu, demais integrantes da expedição (Werner; Betty, mulher do Werner; Iriberto, sócio do Werner; Rose, mulher do Iriberto) no início de janeiro, em Cabedelo, para iniciar a travessia até Fernando de Noronha. Depois, iniciar a descida pela costa, com paradas em Salvador, Morro de São Paulo, Camamu, Abrolhos, Rio de Janeiro, Angra, Parati, Ilha Bela, Florianópolis.

Fernando de Noronha

Simplesmente alucinante. Ficamos cinco dias ancorados na baía do porto. A água é tão limpa que podíamos ver a âncora cravada no fundo de areia e corais, a mais de 10 metros. O controle do Ibama é rígido, inclusive quanto ao número de visitantes possíveis. A Ilha estava lotada de turistas. Na maioria, gente bonita. Os nativos, moradores de Noronha, são simpáticos e alegres. Também... como se estressar vivendo num paraíso desses?

Em Noronha, cada um tomou seu rumo, buscando viver suas próprias experiências. Nos reuníamos sempre à noite, para jantar, contar o acontecido durante o dia, comemorar a vida. Busquei reviver a saudade do tempo passado aqui 25 anos atrás, surfando nas praias do Boldró, Cacimba do Padre, do Meio. E também encantar os olhos com as belezas da Praia dos Dois Irmãos e do Sancho, que figuram entre os lugares mais lindos do mundo...


Fernando de Noronha

Noronha / Salvador

Deixamos o porto numa terça de manhã, depois de acertar as taxas do Ibama: R$ 130,00 a diária do barco, mais R$ 30,00 a diária por pessoa, sendo que nem tivemos o direito de entrar na bacia do porto para abastecer o barco de água e óleo. Difícil entender...

Nosso próximo destino: Salvador, distante 660 milhas, cinco dias e cinco noites de navegação. A previsão de tempo indicava uma frente fria de fraca intensidade para os próximos dias. Vez por outra, pirajás passageiros nos molhavam por inteiro. No final do segundo dia, um pirajá virou tormenta, com ventos fortes, violentos, entre 35 e 40 nós. Os pingos de chuva doíam no meu rosto. Resolvemos arribar, velejar de través. Na verdade, voar de través, buscando abrigo em Cabedelo. Comemoramos a chegada segura ao abrigo com um bom vinho tinto, subtraído da adega do Werner.


Salvador

Contrastes

Tive a oportunidade de velejar a costa brasileira durante três anos, morando em barco à vela, no início dos anos 1980. Dois anos e meio no Iara, primeiro veleiro de 40 pés construído em Floripa, no Ribeirão da Ilha, e mais meio ano em um veleiro Francês de 45 pés. O roteiro foi quase o mesmo que fizemos agora. Sendo que na primeira vez, depois de Fernando de Noronha, ainda fomos ao Atol das Rocas, e depois a Fortaleza, no Ceará...

Pude observar então as mudanças que o tempo e o dito progresso fizeram nestes lugares, obviamente os mais conhecidos. Noronha, por exemplo, continua no mesmo lugar... mas na minha primeira visita, 25 anos atrás, não havia nada. O turismo inclusive era proibido naquela época. Ficamos 28 dias ancorados na baía do Sancho, dividindo espaço, mergulhos e peixes frescos com mais 10 veleiros. Todos estrangeiros.

Em Morro de São Paulo, Bahia, a mesma coisa. Só havia a natureza, pouquíssimas casas de nativos, mais nada.  Agora, a baía de Camamu está praticamente igual. Somente próximo à entrada do canal, na Barra Grande, o turismo é explorado.


Camamu


Morro de São Paulo

Nesta viagem realizei um desejo antigo: conhecer o Arquipélago de Abrolhos. Um lugar único, inóspito. Um aquário no meio do Atlântico! Ficamos o dia inteiro mergulhando em meio a tartarugas, peixes coloridos, badejos enormes, corais, recifes, e atobás brancos. Nos divertimos muito, rindo como um bando de crianças.


Abrolhos

 

Essas aventuras no mar talvez sejam o grande motivo do fascínio que sentimos por ele. Uma mistura de adrenalina, desafios e encantamento com a natureza.

A aventura de navegar pela costa brasileira, entre Noronha e Florianópolis (um percurso bem longo ), mais de 3 mil milhas, sendo 1.600 subindo contra vento e corrente, e depois mais 1.600, descendo a favor, não se resumia somente em enfrentar as condições do tempo, mas também em conseguir manter o bom astral durante a viagem, faça chuva ou faça sol, e neste detalhe nos saímos muito bem.

Vivendo a bordo, aprendemos muito. Relacionamento, paciência, resistência, habilidade, destreza e, principalmente, desprendimento. É simples, para quem gosta de estar no mar.

Para nós, depois de Noronha e Abrolhos, a costa baiana foi a que mais impressionou pela sua beleza, e condições de velejar. Lugares como Morro de São Paulo e baía de Camamu não saem mais de nossas lembranças. Poder ancorar em uma praia de águas tranqüilas e limpas, cheia de coqueiros, e ser recebido por nativos de coração puro, sem a maldade e a malícia das pessoas da cidade grande, é com certeza, um privilégio.

No litoral carioca, outro lugar alucinante para quem viaja de veleiro é Angra dos Reis, Ilha Grande, parada obrigatória. Ilha Grande e sua imensa baía, cheia de ilhas e pequenas enseadas de águas limpas, com sua natureza ainda virgem, é também um lugar fantástico. Nestes lugares a gente esquece dos compromissos do dia, do mês e da semana. Uma verdadeira terapia.

Para completar com chave de ouro, fomos visitar a cidade de Parati, no fundo da baía de Ilha Grande. À beira do mar, esta cidade é um show!! Um banho de história do Brasil, de cultura e de arte, em meio à natureza. Passado e presente se fundem, expressos em suas arquiteturas bem conservadas.

Mas o tempo passa, e o tempo voa. É chegada a hora de retornar ao Sul, às nossas casas, à minha Escola de Vela, às nossas coisas.

Uma parada em Ilha Bela para reabastecimento e preparação do barco para cumprir as últimas 290 milhas que nos separam de Floripa.

As amizades fortalecidas, as lembranças vivas, o crescimento de cada um e a alegria de viver estavam estampadas em nossas faces.

Agora, sim, era hora de voltar. Até nosso valente Hot Day II já se mostrava saudoso do Iate Clube de Santa Catarina, com saudade de seus amigos barcos. Talvez também já estivesse com saco cheio de nós... tudo bem, entendemos Hot Day, e agradecemos por ter nos aturado todo este tempo, e ter resistido aos ventos fortes e às ondas grandes que cruzaram nosso rumo.
DICA – Pessoal soltem suas amarras. Preparem bem seus barcos; deixem tudo funcionando direito. Certifiquem-se se as partes de grande esforço, como o mastro e seus estais estão sadios, sem sinais de fadiga. Verifique o leme e seu eixo, se não tem rachaduras, assim como também a estrutura de fixação da quilha no casco. Bomba de porão tem que ter no mínimo duas, uma elétrica e outra manual. Tenham todo o material de salvatagem a bordo. Levem boas ferramentas. Peças de reposição, como; correias do motor, rotor da bomba d´água, manilhas, braçadeiras, silicone e silvertape são importantes!
Velas boas pra vento fraco e vento forte, no mínimo duas forras de rizzo na mestra.
Mesmo que tenham bom sistema de navegação eletrônico, nunca dispensem as cartas náuticas de cada região, e marquem suas posições nelas !
Levem roupas de tempo; casaco, calça e botas.

Galera a costa do nosso país é maravilhosa para se navegar. E fácil, para quem se prepara e tem um bom barco. Comprem roteiros náuticos, eles são ótimos, ajudam muito. O do CECCOM, é um manual simples e direto, atualizado e com as informações importantes da maioria dos lugares legais para a gente conhecer. Na costa da Bahia tem roteiros para turismo náutico, com fotos aéreas das barras, e várias informações, inclusive dos bons restaurantes a beira das enseadas com rádio VHF, poitas, abastecimento de água e tudo mais.

Tire uns diasinhos de férias e se aventure. Para nós que moramos aqui no sul, navegar até Ilha Bela são só dois dias e duas noites! Mais um dia está em Angra! Ficar uma semana, dez dias, ou o que der...já é inesquecível.

Dou a maior força – Inclusive se quiserem, combinei com o Décio, do veleiro Hot Day, que a partir de agora a Escola de Vela Navs, oferece aulas, saídas práticas no Hot Day, para quem quiser aprender uns macetes, tirar dúvidas, e vivenciar as situações de cruzeiro.

É só entrar em contato comigo; Eduardo Pirão, fones = 48 – 3232 1235  / 9998 7442.
Ou pelo e-mail; edupires@matrix.com.br

Valeu !!
Abraçooo

Pirão

 

 

 

 

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