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SOZINHO DE SÂO FRANCISCO À FLORIPA

Barco: Veleiro TOR 42 pés.
Partida: Quinta-feira, 21 de setembro de 2006, Capri Iate Clube, São Francisco do Sul, SC.
Chegada: Sexta-feira, 22 de setembro de 2006, Veleiros da Ilha, Florianópolis, SC.
Distância aproximada: 110 Milhas Náuticas.
Velocidade média: 5.8 nós.
Tripulação: Eu, Eduardo Pires “Pirão”.

Realizar navegações em solitário nunca me atraiu. Acho mais legal ter no mínimo mais outra pessoa junto, para poder bater papo, dividir tarefas, e é mais seguro, no caso de alguém se machucar, tem o outro para seguir conduzindo o barco.
A alguns anos atrás parti deste mesmo Capri Iate Clube,  sózinho, levando um Fast 310 para Porto Belo. Nesta ocasião tive bastante sorte. Peguei um dia lindo de sol, e vento Nordeste “de popa” de uns 15 nós. Como este barco tinha piloto automático, puder usar vela mestra e vela balão, e velejei bem rápido, mantinha velocidade entre 8,5 e 9,5 nós.

Desta vez foi bem diferente. Meu amigo Daniel Camiloti me ligou na terça-feira solicitando a tarefa de conduzir seu novo barco, de São Chico para Floripa, para ser instalados vários instrumentos de navegação, piloto automático, ar condicionado, e subir o barco para limpeza e pintura do fundo do casco. O TOR 42, de nome MADO, construído em Floripa pela TOR IATES dos amigos Aquiles Tor e Elói Franzem, é simplesmente lindo. Bem construído, ótimo acabamento, confortável, seguro, e veloz. Desenho do famoso arquiteto naval argentino “Nestor Volker”.
Mas no momento este barco estava com casco cheio de cracas, prejudicando sua velocidade. Também não tinha piloto automático, tive que ficar o tempo todo no leme. Tinha sómente bússola, ecosonda, rádio VHF, e um bom motor a diesel “Yanmar 45 hp”. Não tinha a vela mestra, sómente a Genoa 1 no enrolador do estai de proa.

Enfim, não estava muito adequado para uma navegada em solitário. Como não conseguí nenhum tripulante para me acompanhar, pensei; o trajeto não era muito longo. Partindo na quinta até metade do dia, poderia dar uma parada em Porto Belo a noite, para uma descançada, e sair no dia seguinte bem cedinho para chegar em Floripa no Iate Clube por volta do meio dia de sexta. Tinha uma reunião marcada ás 12:30h ali mesmo no Veleiros da Ilha, e se não tivesse grandes imprevistos, daria certinho, então, resolvi aceitar mais esta empreitada.


Na quarta, um dia antes da partida, dei uma olhada no mar, na praia Mole, e estava tranqüilo com ondas de meio metro, e o vento era Nordeste, parecendo tempo firme. Sendo assim acabei nem consultando a previsão do tempo, já estava decidido que iria mesmo.

Embarquei num ônibus as 7 da manhã para  Joinville, cheguei as 9 e pouco e Daniel me levou de carro até o barco, no Capri. No caminho compramos umas coisas boas para me alimentar na viajem. O dia estava lindo, e eu me sentia em ótimo astral.
Chegando no barco levamos umas 2 horas para descarregar roupas e objetos pessoais da família Camiloti, pois o barco iria passar por reformas, e acabei partindo as 12:30h, aproveitando a maré que já enchia dando condições de sair pelo pequeno canal do clube sem encalhar o Mado, pois com seu calado de 2,2 mts não é possível dair do Capri com maré baixa.
Logo percebi que o barco estava lento devido as cracas do casco. Meu GPS Garmin Etrex não quis ligar quando resolvi conferir a que velocidade andava, mas tudo bem. Sempre levo em minha bagagem as cartas náuticas dos percursos, e as coisinhas básicas para a navegação estimada, como; réguas, compasso, alidade, lápis, etc...
Fiz uma estimada na saída da barra, dividindo a distância entre a ponta do forte e a ilha Mandigituba, pelo tempo que levei para percorrer este espaço, achando uma velocidade em torno de 5.5 nós. Acelerei um pouco mais para tentar navegar pelo menos por volta de 6 nós. Abri a vela de proa toda para ajudar, aproveitando o ventinho fraco de Leste.


morro do forte pela popa


Ilha mandigituda

Bom navegador tem que ser malandro e improvisar...rs...Para poder sair do leme e descer a cabine para pegar alguma coisa, ou mesmo para regular a vela, precisava que o barco ficasse alguns segundos sem sair muito do rumo até eu voltar ao comando. Então acertava bem a proa no rumo e apertava a trava da roda de leme para ela não se mover, e saía fazendo tudo as pressas. Na maioria das vezes dava certo, mas em algumas o barco saía muito da rota. Meio complicado, tive que levar na mão a viajem toda. Para ficar numa posição confortável, já que seriam muitas horas, coloquei minha bússola de mão encaixada com uma toalha na braçola do cockpit de frente para mim, de forma que eu podia ficar deitado no banco de sotavento, vendo o rumo, a vela, e  também podia segurar a roda de leme. Ficou legal.


alidade e genoa


A navegada seguia tranqüila. Ao final da tarde pude presenciar um lindo pôr do sol. Com céu bem limpo conseguí tirar umas fotos no exato momento que o sol começou a se esconder atrás de um pequeno morro, a oeste.
De repente o vento começou a refrescar, rondando para sueste e aumentando de velocidade rapidamente. O mar ficou encarneirado, e o MADO começou a adernar mesmo estando só com a genoa. A velocidade aumentou, mas não é saudável para o funcionamento do motor navegar muito adernado, pois pode prejudicar a circulação do óleo que lubrifica as engrenagens do motor. Então enrolei metade da genoa, ficando do tamanho de uma buja.
Esta mudança no vento tinha a característica de entrada de vento sul, o que para mim seria muito ruim, ficando completamente contra o meu objetivo.

Neste momento ouço pelo rádio VHF uma ‘chamada geral” da estação Itajaí rádio, solicitando a todos as embarcações passarem ao canal 28, para ouvir a mensagem. A notícia não foi nada animadora... prevía para a região a entrada de grandes ondas, de 2,5 a 3,5 mts, e ventos de nordeste a sudoeste força 7 ( de 28 a 33 nós ),  sugerindo para quem estivesse nesta região procurassem um porto abrigado.

Comecei a pensar nesta  nova situação, e analisar quais as minhas opções, se acaso o mar ficasse muito grande e o vento virasse para sul. Só tinha duas opções; seguir em frente para chegar a Porto Belo, enfrentando o mal tempo e o cansaço, pois levaria algumas horas a mais do que previa. Ou então, se a coisa ficasse preta, inverteria minha rota, retornando a São Francisco, navegando a favor das ondas e do vento, o que não teria problemas. Mas jogaria fora todas estas milhas que já havia ganho, pondo por água abaixo a minha proposta de entregar o barco em floripa no dia seguinte.
Escolhi a primeira opção. Levei um papinho amigo com o MADO, dei uns tapinhas camaradas no seu convés...rs...e senti firmeza no barco. Com o passar de algumas horas, já noite adentro, fui ficando feliz por minha descisão, pois o mar não cresceu muito, e o vento apesar de rondar para sul foi perdendo força. Como de costume, procuro não navegar perto da costa, o que me ajuda bastante no caso do vento ficar contra. Esta estratégia dá espaço para arribar em direção a costa usando as velas, e neste caso pude manter o mesmo bordo até Itapema, já bem pertinho de Porto Belo belo. Finalizei as poucas milhas que faltavam só no motor, de cara pro vento, mas já em águas abrigadas pela ponta de Porto Belo. Show de bola !


Parada em Porto Belo

A 1 hora da madruga de sexta-feira cheguei nas águas tranqüila do Iate clube de Porto Belo.
Este clube é muito rígido em suas regras com os visitantes. Devido a constante visita de navegadores esportivos, que buscam a segurança e conforto de uma estadia com toda a estrutura que este clube possui, foram obrigados a adotar limites aos visitantes, dando exclusividade aos seus associados.
Mas como sempre cultivo bom relacionamento, e já fiz muitas amizades nos centros náuticos por onde passo, tinha certeza que seria bem recebido novamente. Principalmente neste clube, onde trabalhei na criação da sua Escola de Vela, trabalhando por mais de 10 anos como instrutor.
Ao entrar pelo canal principal de acesso aos trapiches, logo vi a movimentação dos vigias, provavelmente já reconheciam o veleiro MADO, que por alguns anos teve este clube como sua casa, sob os cuidados de seu primeiro dono e também meu prezado amigo, sr. Mário Gern.
Ao me aproximar mais, reconheci o funcionário do clube que estava de plantão nesta noite. Era o Murilo, como percebi que ele ainda não havia me reconhecido, brinquei falando em voz alta; Daí cumpadre, tudo bem? É o seguinte; eu vinha passando por perto indo para floripa, e foi forçando o leme, mudando o rumo aqui para o clube, então fui obrigado a entrar aqui...rs...tudo beleza?

Murilo abriu um sorriso, e respondeu;
- Há...é você Pirão! Qual é?
Falei; Seguinte Murilo, to descendo para Floripa, preciso dar uma descançadinha de umas 4 ou cinco horas, vou seguir cedinho, dia clareando, posso ficar atracado no cais de embarque e desembarque?
- Não é permitido, mas...você eu deixo...rs...
Num super astral encostei o barco e me ajudaram na amarração. Batemos um bom papo, comi uma lazanha (que já havia colocado no forno e estava pronta ) tomei uma bela ducha na suíte de popa, e desmaiei na cama do camarote de proa, com lençolsinho, traveseiro e acolchoado, até as 6 da manhã. Coisa mais linda !


Porto Belo - Murilo

De Porto Belo para Floripa

Acordei recuperado, liguei o motor e preparei uns sanduíches, copo de sucrilhos, e deixei tudo a mão no cockpit, com água e suco. Agradeci ao Murilo que prontamente me ajudou a soltar as amarras e segui minha viagem.
O dia amamheceu bonito, sem vento, e sem nuvens no céu, o sol aos poucos ia esquentado, deixando lindo o mar e  o verde das montanhas.
Segui navegando desta vez bem próximo a costa para curtir o visual. Como o mar estava calmo e sem vento, pude tirar fotos das pontas dos morros e costões que precisava contornar até alcançar as Ilhas Amendoim, também conhecida como Macucos. Daí em diante já pude ajustar minha proa num rumo direto a entrada da baía norte da Ilha de Santa Catarina, com os morros do norte da ilha no meu visual.

Segue uma em seqüência as fotos destas pontas; primeiro a de Porto Belo ( extremidade norte da enseada das praias de Bombas, Bombinhas e Sepultura) depois, na extremidade sul desta enseada passei pela Ponta das Garoupas ( fico devendo esta foto ), em seguida surge a pequena praia dos Padres, tendo na sua extremidade sul as os costões da Ponta de Bombas.
Agora a boreste abre-se uma grande baía, formada pela pequena e famosa Praia de 4 Ilhas, prainha da Atalaia, a grande praia de Mariscal até alcançar sua extremidade sul, formada pelas altas montanhas de Canto Grande. Bem próximo a esta ponta encontran-se as Ihas Amendoim, onde pode-se optar em passar por fora das ilhas ou pela extreita passagem entre elas e a ponta de Canto Grande, que foi por onde passei.


Ponta de Porto Belo


Ponta Praia dos Padres


passando canal de macucos. Aparecendo a pontinha do morro de Canto Grande a Boreste.


passando Macucos.Aparecendo o lado de bombordo desta passagem, com a ponta de dentro das Ilhas Amendoim.

Seguindo agora com a proa direto para Floripa, entrou um ventinho de terral, vindo da baía de tijucas. Aproveitei e abri novamente toda a genoa, agora pelo lado de bombordo.

A partir daí comecei a me sentir em casa. As montanhas do norte de Floripa cada vez mais cresciam e iam aparecendo seus detalhes pelo lado de bombordo. E a boreste pude curtir o visual dos morros de Ganchos, da praia de Palmas, depois os morros do Tinguá e Ponta da Armação com seus novos condomínios com lindas manções construídas nas encostas, de frente para o visual do mar. Um privilégio para poucos.

Por volta das 10 horas da manhã já havia passado a Ilha de Anhatomirim, e navegava agora dentro da baía norte, podendo curtir os visual das Ilhas Ratones com a Ponte Hercílio Luz ao fundo. Não tinha nada fora do lugar. Tudo bonito com sol e calor de verão. O veleiro deslizava num mar liso, agora sem vento, e o motor possante roncava tranqüilo na velocidade de cruzeiro.


Ponta Forte Ratones


farolete Ratones pequeno

Antes e depois das Ilhas Ratones passei por algumas baleeiras de pescadores, que ficam cuidando de suas redes de pesca. Essas redes são de superfície, e tive que mudar meu rumo algumas vezes para desviar delas, passando por fora de suas extremidades.
Durante este trajeto pude ficar mais a vontade no convés, pois com o mar liso, travava o leme, e o barco mantinha por um bom tempo o seu rumo. Com isto ficava caminhando pelo convés pegando um sol, observando melhor onde estavam as redes, e até fiz um pouco de ginástica, uns alongamentos, aproveitando o grande espaço que o TOR 42 tem no seu convés de popa. Maravilha !

Cruzei a Ponte Hercílio Luz e guinei para bombordo, ficando com o rumo direto para a entrada do Iate Clube de Santa Catarina. Fui ajeitando cabos e defensas para a atracagem, e ao meio dia encostei no cais próximo ao guincho, onde Christian Franzem, debochado, e em bom astral já me esperava, preparando a subida do barco após o horário de almoço.


Com a gostosa sensação de missão cumprida, arrumei minhas coisas, dei uma geral no barco; desligar eletrônicos, despensar lixo, etc...E após outra bela ducha, pude chegar na hora certa para minha reunião de negócios, na qual o assunto era uma nova viagem no próxima neste próximo verão. Uma grande viagem pela costa brasileira, que se der tudo certo, daqui uns dias eu conto pra vocês. Por enquanto é segredo...rs...!!!

Até mais,

Eduardo Pires “ Pirão

 

 

 

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